sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Amanhecimento


De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.
(elisa lucinda)

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O Tempo do Homem que Monopolizou o Mergulho


Tinha esse país e tinha um grande Homem, e estava tudo correto. No começo da manhã, quando o sol rosado despontava, uma grande fila começava a se formar na frente do portão de metal, que abria pontualmente às 06:00 horas. A fila começava a se arrastar, enorme que era, pelos quarteirões rodeados de cachorros e cachorros quentes, que se aproveitavam dos lixos humanos proliferando. A carreira se agigantava ao longo do dia, e os ladrilhos pisados da calçada iam endurecendo debaixo do falatório, da tagarelice, da impaciência dos homens. Muitos deles chegavam ainda pela noite, sem estrelas, e esperavam entre o ar mais frio da madrugada uma dianteira. Esperavam nunca mais esperar, no meio de cobertores velhos e sapatos, marmitas e álcool, palavras trocadas sem gosto, sal, sono. Um passo à frente, o portão aberto espera os homens com calma, e com calma todos são revistados entre os cabelos, no peito e costela, debaixo dos braços, genitália, pernas e pés. De frente e de trás, a confirmação da entrada é a garantia de nenhuma arma branca, gente preta ou qualquer perfurante. Inalantes e líquidos também são proibidos, mas podem ser retirados na saída, pagas as devidas taxas.


***

Quando andava pelas pedras que rodeavam a praia de sua infância, o Menino sabia muito bem onde pisar. O mar ali era muito recortado, e de longe não se podia ver muito bem o que era menino, o que era bloco e pontas de pedra. O Menino não se mexia, perdido entre a linha da onda e da brisa fresca, e assim passava, um após o outro, os dias. De vez em quando um pássaro-agulha costurava a água, buscando um peixe pra sumir no azul. Mas certa vez, como nunca antes, o Menino levantou, puxou um naco de ar e pulou, de cabeça, pra sumir na maré.


***

O local é um galpão muito alto, feito com pedras de granito cinza, e era o único lugar desse país onde todos podiam entrar na fila e esperar tanto, por algo tão esperado. Por isso que todos esperam.
O Homem teve realmente uma bela idéia, e foi belo quando, em meio às lágrimas descobriu o sentido de tudo, e quis mostrar à Humanidade como isso era. Começou muito de pequeno, e com muito suor, sangue e estudo, conseguiu erguer um quartinho. Dentro desse quarto se dedicava o dia todo a aperfeiçoar o seu mecanismo, que abria à experimentação nos fins-de-semana. Como se fosse obra de Deus, ou do Diabo mesmo, um ano depois conseguiu um terreno perto do Centro da cidade, onde suou alguns anos mais de sua vida para erguer quatro paredes que deram lugar a uma sólida estrutura onde ninguém, ninguém jamais pôde sair como havia entrado.
Construiu um sonho e o ofertou a preços módicos, a todos. A plataforma ocupava o centro do galpão e tinha muitos e muitos metros medidos, tanto é que se demorava vinte minutos a subida. Lá, duas mulheres muito bonitas e peitudas sorriam e amarravam os pés dos homens bem forte. O indivíduo andava até o fim da plataforma e se deixava cair com os braços cruzados no peito, os olhos bem abertos, e assim a fila corria. Quem chegava lá embaixo ficava a alguns milímetros da superfície da água, contida dentro de uma piscina redonda. Sorriam.
A fila caminhava passo a passo e cada homem repetia os gestos necessários, com uma sanha de medo e alucinação dentro da barriga. Enquanto esperavam, ouviam mais uma vez a história do Menino, contada muitas e muitas vezes desde todas as infâncias. E a história aqui ainda se repetia no meio de grande comoção. E todos podiam sentir pela primeira vez o ar frio lá de cima da plataforma, passeando entre os cabelos na queda com os olhos abertos, a respiração presa e o coração sufocado, frente a frente com toda a água e tão perto dela. Dois centímetros do nariz, o reflexo da água olhava dentro dos olhos de quem encarava. O que viam? E, pendurados pelos pés, os homens viravam pêndulos de um tempo que só parava um pouco, pra continuar sempre correto.
Dizem que certa vez um homem do interior, sem querer, deixou cair o relógio de pulso na água e endoidou, pois teve um visão.

domingo, 24 de junho de 2007

Cai-Cai

Procurando estrelas

encontrei

um seixo, um chão no queixo.
Hora em que ela encaixotava a cara, o bar ia fechando.


As luzes ainda caíam muito sem-vergonha, indo e voltando e
sombreando os vultos, carregando as moscas. Pelo chão, os cacos quebrados se abriam piscando pras mesas, ruminando debaixo de um teto que dorme toda noite. Enquanto isso, os copos gostavam de ficar rodando em volta do ventilador.O bar ia fechar.


De vez em quando, quase sempre em noites quentes, um homem muito antigo conseguia um lugar para sentar, se embebedar nesses olhos...

Mas no dia seguinte, era sempre a mesma sede, coberta de pó e sem teco de sombra pra fugir do sol. Sede cor de amarelo, a ponto de ver o próprio corpo virando
água salgada.


Porre de mágoa.

33

Fechou a porta de saída como quem esvazia. Esvaía umas idéias madurando que cresciam nos últimos dias, saindo que nem espinhas e pipocando pelo rosto mesmo. O sentimento era de estupefação.

- Eu pego esse maldito!


Todo esse roteiro, lágrima sobre um tanto de tranqueira, roupas véias e pó, mofo e cachorro molhado, baguios de toda maneira, caraminholas e minhocas, juntas num caldo bem forte que é o pessimismo da moça, feita perfeita para amar! Ugh! Saiu por aí precisando andar, afinal, já dizia o casal moderno, agora que não é mais só precisa se encontrar. Como se jogasse um esconde-esconde consigo mesma, procurou caçar uns problemas por aí. Arranjou o jeito de dar nó em cobra, se afobou demais e parou de novo pra pensar com força. Uns negócios carcomendo, nada muito claro aparecendo, isso juntando com aquilo e uns nós amarrando tudo e mais. Tenta:


- Vou fazer a lista das queixas, tudo dando pitaco, o copo meio vazio, a cama desarrumada, puta moleque chato, reclama de tudo, invade tudo, fica com cara de bosta, não sabe cozinhar, não sabe tocar nada, anda torto, não fala que eu sou bonita, não gosta de sair de casa, eu tenho que ficar agradando, eu tenho que ficar sofrendo, se ele tá aqui é meio ruim, se vai embora é ruim inteiro, eu não posso nem ficar triste, tenho vergonha do meu cabelo, se eu baixo a guarda ele repara fica falando, mas o pior é quando pára! Eu não sou mais nem apaixonada, nem poesia eu faço mais. Minha alegria ficou dura, ela demora um tempo: misturou com a água que eu bebo, se não me esforço nem percebo. A lista das queixas continua, o copo meio vazio. Se é meio vazio eu deito. Eu paro. Tanta coisa pra pensar. E quanto mais eu penso mais fica embaçado. Vou acabar com esse negócio. Não tá indo, não tá caminhando...


Mas a constatação vai virando cimento, que a gente cada vez põe mais areia. E toda pessoa sabe que a razão tem jeitos de ser cruel, então o cimento vai cimentando, unindo os blocos da menina.

Constatação...


O vento frio entra no nariz e pela nuca, saudade do sol, pouca blusa. O frio dá raiva, e a raiva agora é de tudo ser tão errado, como se todo o ódio se juntasse bem ácido num ponto da boca do estômago, desvirginando um conformismo doido porque raivoso. Sentiu que nada era imune. As casas ao redor, todas magoadas, baixavam a cabeça: sim senhora.


- Que cê ta olhando?


A rua humilhada, tudo esmaecia, a noite desmaiava. Já viu uma mulher braba?

Tudo em volta conspirava, chegava no pé do ouvido e soltava um urro.

- Filho da mãe descabacento! Vou lá porque isso não tá certo! Tem que acabar!


Já estava na rua detrás, foi fácil mudar a rota pela viela, andar mais um pouco, a mil. A mina com a boca seca chegou na porta do amado, pobre coitado.


- 33, sou eu, abre aí pra gente conversar.


-Entra, que foi?


- Nhé.


Deu um beijo jogado, nem precisava.


A sala rodava em volta dos dois. O único som era o estalar dos dedos, a novela das oito.


- Vou dizer logo porque eu não sou molenga e falo o que penso!


- Tô ouvindo!


- Ó, meu mundo tá bagunçado, eu gosto muito demais de você, mas não tô agüentando, é difícil ficar junto, não sei o que vai ser (chôro).


Um sorriso tinge a boca do rapaz, que quase suspira de alívio:



- Se vira, nêga!